sexta-feira, 27 de março de 2020

Reflexão sobre a situação actual - a pandemia





1 - A Razão Natural

Chegados a este ponto, ao dia de hoje, ao correr da pena,  seria levado a escrever, muito naturalmente, que cada vez mais coisas se sabem e mais interrogações temos.
Não sei se assim é. Não me atrevo a fazer  nem uma nem outra das afirmações.

O ser humano é racional e social.  Tudo o que sabe e aproveita para assegurar a sua sobrevivência e conservação da espécie,  retira da faculdade de ser racional. Mas, só isso,  não teria assegurado a experiência, saber acumulado e nível de desenvolvimento  e conhecimentos até agora adquiridos. É  exactamente  da sua característica de ser social  que tudo o que retira da racionalidade  é potenciado, partilhado e consolidado.

É  legitimo e natural que, chegados ao dia de hoje,  muitos se interroguem sobre este estado  anormal dos dias que vivemos e sobre o futuro dos dias que virão.

Como terá tudo isto aparecido, de onde surgiu, porquê, em que circunstancias, a mando de quem ou de quê, para quê !

É sabido e sentido que a Natureza tem uma regra fundamental que rege as nossas vidas e,  no final de contas, tudo o que nos rodeia. A regra muito simples . E a do equilíbrio. 
Na Natureza os equilibrios permanentemente instáveis e inimagináveis, dão-se a cada fracção ínfima de tempo, ora com sucesso e a vida permanece, ora sem ele e a vida acaba ou possivelmente possa mudar de forma.

No nosso organismo, os equilíbrios  dão-se a toda a hora e são conseguidos através da conjugação, eliminação e acção de agentes que por si sós nos seriam letais mas que em condições ideais para fazer esses equilibrados nos garantem estar vivos.

A vida, tal como a temos vivido, tornou-se desenfreada, perdeu regras talvez necessárias aos  tais “equilíbrios”, perdeu referências e valores que, no final de contas, tinham mesmo muita razão de ser por fomentarem e ajudarem ao estabelecimento desses equiíibrios constantes, á guerra pela vida que cada organismo pratica a cada segundo de existência.
A ausência de valores leva progressivamente ao descontrolo, à falta de senso e ao desafiar das regras elementares da existência.

Na Natureza, há equilibrios que podem causar-nos estranheza. Imagine-se o que seria se algumas espécies deixassem de matar parte de outras, de se alimentar de outros animais, de outras plantas. Um exemplo simples, se os repteis, as cobras, deixassem de comer e matar ratos, roedores, o que seria ?  Os equilibrios nos campos e nas cidades, na lavoura e nas habitações perder-se-iam e seriamos invadidos por pragas e doenças.
E fiquemos por aqui quanto a exemplos  mas pensando nas tendências actuais para criticar a alimentação carnívora, a moda, não sei se racionalmente e com seriedade difundida e defendida para fomentar a alimentação vegetariana, para criminalizar os abates de animais, quase comparando, tout  court,  o criminoso  que são os maus tratos a animais com a sua criação, uso e  abate com fins alimentares.

Poderíamos por aqui continuar a tecer comentários e exemplos sem conta.

Então, uma das causas, a razão para a situação actual, poderia bem ser uma acção da Natureza para suster a acção humana no sentido dos desequilíbrios, do aumento desmedido do uso e consumo despropositado de recursos indispensáveis á vida futura, os aumentos populacionais inconsoláveis, fruto dos avanços do conhecimento e da ciência e do seu uso exclusivamente em proveito próprio, egoísta, no sentido de cada vez tirar apenas mais prazer, mais conforto e bem estar, desprezando os equilibrios fundamentais das regras da Natureza.
No século XIV assistimos ao grande aumento populacional, aumento de riqueza e desenvolvimento e, sabe-se lá se para repor o “equilíbrio” natural, a humanidade confrontou-se com a Peste Negra que dizimou uma boa parte da população.

Haverá sempre quem se possa inclinar para os aspectos religiosos, os castigos divinos. sinceramente que nisso só consigo ver  um escape para os mais ignorantes. 
Tendencialmente, a humanidade, quanto maior é o nível de ignorância e desconhecimento, mais refugio encontra nos falsos deuses, nos castigos divinos, em Deuses do Amor e da Bondade que de quando em vez, talvez por distracção ou por gozo próprio, se vão entreter castigando aqueles que amam e que criaram á sua imagem e semelhança. Nada mais absurdo, só próprio mesmo das trevas, da Idade Média.

Será que tem algum fundamento irmos encontrar resposta por aqui?
Sinceramente que acho racional, com sustento no conhecimento e na razão tudo o que escrevi mas não me atrevo a afirmar que assim seja.
Tudo é muito mais complicado que aquilo a que a razão e o conhecimento actual permitem chegar.


2 - A quem pode interessar a actual situação ?

Cá chegamos a uma pergunta muito pertinente.
A pandemia, o  corona-virus19, terá sido propositadamente desenvolvido por alguém, algum país, algum grupo para daí tirar vantagem?
Ou terá mesmo sido desenvolvido para fins científicos e, por acidente, deixado “escapar” de algum laboratório, tubo de ensaio, sitio onde estivesse contido e aprisionado?

O que podemos ver é que a pandemia é tão universal que não parece concebível que algum país, alguma potência  ou grupo politico possa ter estado na sua origem. Ninguém, aparentemente, dela tirará vantagens, todos serão atingidos mais ou menos por igual, infelizmente, em escala muito larga.

Potências que teriam nesta fase de desenvolvimento da ciência poder para o fazer ou interesses políticos de conquista ou domínio económico e geopolítico, quais seriam?
A China, já se viu, apesar de o virus ter surgido em pleno conflito de comércio, económico e politico com os EUA, viu-se já como foi dizimada, o que sofreu e está a sofrer. Incluindo governantes e estrategas militares.
Os EUA? Apesar da irracionalidade que caracteriza a actual Administração americana, os efeitos estão também a ser devastadores e avizinham-se poder atingir proporções ainda mais fatais para as vidas e para a economia que noutros países e continentes.
A Russia? Até agora, curiosamente, o bloco soviético parece não ser dos mais afectados. Também é verdade que, apesar do nível  global e da facilidade das actuais comunicações, o sistema politico vigente na Russia permitir-lhes-á, se assim o pretenderem, ocultar muito mais as realidades do que na generalidade dos outros países e continentes.
Do Japão, apesar do poderio económico e mesmo militar, não se pode concluir da sua responsabilidade ou iniciativa na crise pandemica.

Da Europa, …, muito menos pelas razões obvias.

Lá muito no fundo, com grande esforço, poder-se-ia concluir pela vantagem de um qualquer Grupo Politico-Economico, com um poder oculto mas absolutamente grande cujos membros e lideres se encontrassem muito bem isolados, preservados, talvez já vacinados e imunes aquando da libertação do virus, aguardando ainda a “limpeza e o colapso total” para,  de seguida, virem tomar conta do Mundo!

Isto, claro que é posíivel mas não o concebo senão numa narrativa de um qualquer conto de ficção cientifica, de teorias da conspiração, quase um capítulo da Guerra das Estrelas, da Guerra dos Mundos.

Confesso que creio que estamos ainda numa fase sem muitas respostas, com poucas evidências e que, com o passar de mais umas semanas ou mesmo um ou dois meses, se tudo não vier a ser resolvido com pelo menos uma certa visão de uma luz, por pequena que seja, ao fundo do túnel, tentar dar agora respostas a tudo isto é, não só impossível como, colocando-nos a responder racionalmente, correremos enormes riscos de ver a lógica e a racionalidade traída pelo desenrolar dos acontecimentos.
E vir, por isso mesmo, a ter enormes surpresas que nos deixariam de boca aberta!
Os vizinhos peninsulares costumam ter um tiro certeiro para situações como estas:  “Bruxas? Não acredito. Mas que as há, há!” 


3 - Então, o que fazer?

Esta é uma parte importante desta minha reflexão, sem duvida.
No futuro mais próximo, o importante é que não nos deixemos contagiar. Cair nesta altura num leito, que os não haverá, de um hospital, é coisa dramática. Isolamento total, sem visitas, sem ver familia e sem receber carinhos ou conforto, indispensáveis à cura, pelo menos do espírito. E bem sabemos quanto importante é um espírito saudável para ajudar à cura fisica.

Estar muito atento ás perspectivas de duração de tudo isto.
Uma coisa é durar um mês, umas semanas. Outra, bem diferente, até por razões de sobrevivência alimentar, é durar meses ou meio ano!

Estar preparado ou começar a preparar para soluções alternativas, de subsistência básica.
Em muito do que escrevi no passado, nos últimos anos, até em papeis oficiais, cheguei a comparar o bem estar e o nível de desenvolvimento que a actual geração encontrou com o que tinha a minha ou a dos meus avós. Nas ultimas décadas, os jovens e as crianças, na maioria citadinas, perderam a noção de onde os produtos, as coisas, vinham. Cerjeas, laranjas, feijão, alface ou  batata, mesmo a carne e o peixe, passe a publicidade mas a ideia geral é que tudo vem do supermercado, do Continente ou do Pingo Doce.

Nas gerações anteriores, ainda que o não precisassem de fazer, como todos eram muito mais rurais, todos sabiam como fazer um “desenrascanço”, como se planta uma batata, uma alface, uma couve, quando se pode ir colher, o que se deve fazer entretanto, cavar, regar, adubar. E, se a dificuldade fosse muita, sempre haveria uma mão amiga de um vizinho que daria a ouve, a batata ou o feijão. Ou mesmo um pedaço de terra para a cultivar. Fundamental para a subsistência, criar umas galinhas, dão ovos diários e carne, canja anos dias de doença, uns coelhos a que é preciso ir dar couves todos os dias, um porco que dá para durar na salgadeira mas é preciso engordar dando-lhe a lavagem todos os dias!

Os tempos mudaram e muito. As dificuldades e os problemas passaram a ser o novo jogo que saiu ou vai sair, o novo telemóvel, consola, festival de musica ou festa e o dinheiro , onde o arranjar para os ir comprar. E daí o crescente endividamento dos pais, das famílias.

Em caso extremo, o plantar uma couve, semear um bocado de terreno e ter para sustento imediato, deixou de ser possivel, por falta de conhecimentos mínimos, elementares.

Há que tentar, sem pânicos, dar a volta a isto. 
É neste caso, mais do que dar a esmola, ensinar a fazer, a pescar e a trabalhar. Porque vai ser preciso todos os dias, saber fazer. 

Pode parecer dramático e assustador. Mas, acreditem, que é só prevenção.
E prevenção básica, que nunca deveria ter sido ignorada.

Com muita amizade e sentado no mesmo barco,

Carlos Pereira Martins

(Economista)



quarta-feira, 25 de março de 2020

“EUROBONDS” ou "COVIDS-19 Bonds”, mas venha, urgentemente, uma Emissão de Divida Europeia



“EUROBONDS” ou "COVIDS-19 Bonds”, mas venha, urgentemente, uma Emissão de Divida Europeia, conjunta.

Retomo um assunto sobre o qual escrevi bastante durante a chamada Crise Financeira iniciada do outro lado do Atlantico em 2008.
É fundamental para todos nós, cidadãos europeus mas, sobretudo, seres vivos que habitamos este espaço do Planeta chamado Europa, com todas as suas especificidades culturais, políticas, geográficas e climáticas, não perder de vista e manter como prioridade central a existência e pleno funcionamento do Mercado Único, o que significa as Economias. O Mercado Interno, o tão propalado Single Market.
Manter a produção, o comércio, o emprego e os rendimentos que permitem que a vida continue tal como a conhecemos e temos vivido desde que pela primeira vez abrimos os olhos, até hoje.
E, para isso, é fundamental que todos os intervenientes no Mercado Único, as economias e os Estados Membros e também os vizinhos próximos europeus, possam tomar, em tempo ainda oportuno, as decisões que permitam o funcionamento, já não digo sequer e apenas, das economias e do livre mercado mas da VIDA.
É fundamental dar liquidez ás empresas mas isso não chega, também ás famílias é necessário. 
Sem isso, a produção não escoa, não haverá comércio.
E é sabido e tenho-o relembrado constantemente, que o comércio é gerador de PAZ. Onde há comércio, pode haver concorrência o mais forte que se queira, guerras de preços e de vendas, mas há paz no sentido social e militar do termo. 
Os povos tendem a manter o clima indispensável e a paz social necessária aos entendimentos, á procura, à oferta de bens e serviços, ao entendimento económico. 
Com o comércio forte, as guerras tendem a ser menos.
Claro que daqui excluo o comercio de armas, de seres humanos ou de drogas. Esses, aumentam em exponencial os perigos de guerras, as tensões e as (más) acções.
Quero reforçar a necessidade que neste preciso momento me parece fundamental de emissão de divida europeia, conjunta.
Só assim ela poderá ter credibilidade para ser emitida e utilizada pelos Estados Membros, consolidada, conjunta, garantida pela UE, por todos os Estados Membros.
Estamos numa situação muito parecida com uma guerra à escala mundial.
Se, outrora, o Plano Marschal, as Emissões de consolidado de Guerra, foram a forma de o nosso chamado Velho continente, a Europa, se reerguer, colocar a sua reconstrução, a industria, a produção novamente com vida, agora, chamem-lhe EUROBONDS, chamem-lhe Consolidado Covirus-19, chamem-lhe o que seja, é necessário e imperioso.
Vou pelos Eurobonds pois, com a experiência que tive de quase uma década como Membro do C. Economico e social Europeu, participei e conheço muito do trabalho que está feito, quer em Pareceres do CESE, quer pela comissão e pelo Parlamento Europeu, sobre essa, na altura hipotética emissão de divida.
Agora, em minha opinião, não há tempo nem espaço para grandes discussões de pormenor. Há que dar força à Emissão de Divida Europeia, conjunta e GARANTIDA pelo conjunto dos Estados Membros.
E não tenhamos duvidas que, se o não fizermos nesta altura, então, sim, o colapso económico poderá acontecer. 
A hora é de fazer andar a VIDA, tocar a vida para a frente, dar possibilidades de compra, de consumo, ás famílias e aos indivíduos, dar capacidade de produção á industria e de transacção ao comercio.
O que também significa dar vida à economia e ao mercado.
É esta uma primeira abordagem ao tema mas é também um apelo pessoal quase desesperado.
A ordem dos Lideres Europeus, se deve ser Fiquem em Casa, deve também, a nível polaco, ser Emitam Divida Europeia Conjunta, Eurobonds. E quero terminar com uma nota  de esperança  nesta situação tão dramática.  Se os governos mantêm a capacidade  de gastar acima da capacidade de criação de produto e riqueza do país, resulta daí que se pode comprar mais do que aquilo que se produz.  E, nessa situação, o resultado será o aumento dos preços, o galopar da inflação.  Nunca foi uma solução desejável.  Mas, o que neste momento acontecerá  é que pelas dificuldades de movimentação de todos, em todo o mundo, isso não acontecerá. Os acréscimos de  rendimento irão na maior parte  para  para a poupança e menos para o consumo. Então, particulares e empresas poderão ter a liquidez necessária para o essencial, pagar salários e fornecimentos e laborar e os Estados, os governos, poderão aumentar o seu endividamento sem as consequências desastrosas que normalmente daí resultam.

Carlos Pereira Martins
(Economista)




domingo, 22 de março de 2020

Tempos de guerra !

Uma tarde de sol, dia bonito.  À primeira vista, ninguém dirá que se vivem tempos e dias como se de guerra fossem.
 Aqui, a vista para a Serra de Monsanto  é magnifica e convida a sair.
 No sufoco das horas que nos fecham em casa, o verde de Monsanto, as ruas sem carros, sem pessoas, convidativas, são uma visão confortante mas, ao mesmo tempo, revoltante, por impotência.



 As escolas onde de costume os miúdos e jovens pululam, são agora espaços vazios, sem vida.

 Aqui, o Externato Maristas de Lisboa, são um exemplo claro disso mesmo.
 Do lado contrário, a situação é igual.  Rua deserta, um estádio onde ninguém vai, onde não se joga mais. E isto não poupa clubes importantes, da Champions League ou dos Campeonatos distritais, todos diferentes, todos iguais, agora,  é mesmo verdade.
 Uma das maiores Escolas Secundárias de Lisboa, a Delfim Santos, agora, é um terreiro sem vida, sem putos!
 Alerta, aqui mesmo, parece ser a mensagem deste novo e moderno hospital, o dos Lusiadas. Mais abaixo, o da Luz, envia a mesma mensagem. como uma ameaça: "cá te espero" !
 Escolas sem alunos, sem vida.
 Estadios sem atletas e praticantes.
 Centro Comercial Colombo sem gente!
 Avenida Lusiada vazia de carros o dia inteiro!
 DIGAM-ME  O QUE ISTO É!
 SERÁ  PAZ, SERÁ A VIDA QUE SEMPRE TIVEMOS?
 OU SERÁ A TRAGÉDIA, A GUERRA SURDA E INVISIVEL ?

SÓ HÁ UMA SOLUÇÃO EFICAZ, FICAR EM CASA, ENFRENTAR A CALAMIDADE, O INIMIGO, COM AS MESMAS ARMAS. ELE NÃO SE DEIXA VER, NÓS NÃO DEIXAREMOS QUE ELE NOS VEJA OU NOS TOQUE.

FICAR EM CASA, É A SOLUÇÃO.

Abraços, para todos.
Carlos Pereira Martins


sexta-feira, 6 de março de 2020

"Eu, ontem, vi a sua picha no jornal" !


Há dois dias, a convite do meu amigo editor, e, neste caso, amigo não necessita ser escrito com maiúsculas ou dar ao grafismo qualquer destaque já que a palavra encerra em si tudo, mas mesmo absolutamente tudo  o que ela  tem para significar,  fui assistir a uma apresentação  de mais um livro, no caso, as "Memórias diplomaticamente (in)corretas" do Embaixador Francisco Henriques da Silva. Teve lugar lá na Baixa, no Palácio da Independência, junto ao Teatro Nacional de D.Maria II.

Desconhecia por completo a obra e, enquanto tudo se preparava, cumprimentando amigos e conhecidos que, nestas coisas, felizmente, sempre encontro em razoável quantidade, fui passando os olhos, saltando capítulos, pelas paginas do livro.

E tive que me deter naquele cujo titulo deu a nota para este pequeno texto que continuo a escrever. Estava lá escrito, mesmo como titulo de um capitulo: "Eu vi ontem a sua picha no jornal" !.
Explicava o autor que, no tempo em que foi embaixador nos EUA, visitou New Bedford, por sinal um local que também muito bem conheço dos tempos em que fui director internacional da Banca e com responsabilidades, também, nas áreas de emigração e não residentes. New Bedford foi dos primeiros locais onde emigrantes portugueses, a grande maioria de origem açoreana, chegaram a terras do Tio Sam. Eram não só os primeiros mas, sobretudo, os mais incultos, mais desfavorecidos e, talvez por isso, dos primeiros destemidos a zarparem da pequenez e dificuldades das ilhas em que estavam confinados, rumo à então já chamada terra prometida e onde se acreditava que qualquer um, mesmo um como qualquer daqueles, podia chegar ao mais alto posto,  obter nível social e  riqueza.

Ora, a impreparação escolar, o grau enorme de analfabetismo e a origem da grande maioria daquela gente, que, diga-se, de destemida e corajosa estavam no topo da pirâmide, dificultava sobretudo depois dos primeiros anos em que a língua materna começava já a ficar para trás e muito se misturava com o inglês aprendido todos os dias em cada canto e com os sotaques e formas mais variadas, desde o que lhes vinha com origem  nos  hispanos, ao "inglês" dos brasileiros, chineses e dos próprios americanos, dificultava, dizia, a conversação e o uso da palavra em situações mais formais como foi o caso.

Visitava o embaixador a comunidade em New Bedford. Alocuções numa cerimonia mais ou menos formal, depreendo. E aparece um compatriota, ainda que bem situado no contexto social da comunidade local e, ao dirigir-lhe a palavra lhe diz, de chofre, "eu, ontém, vi a sua picha no jornal"! O que, mais não era que a tradução à letra da expressão corrente americana de "yesterday, I saw your picture in the newspaper !".

Calculo  o esforço que deve ter tido que fazer para remediar a situação ou não se dar por "tocado".

E, com a leitura deste episódio, recordei-me, de imediato, de outros dois episódios em que me vi envolvido, não nos Estados Unidos da America mas no Canada, ali mesmo ao lado.

Numa elas, durante uma visita de relacionamento bancário entre Bancos Correspondentes, estava numa reunião seguida de almoço formal no Royal Bank of Canada, ema Toronto. Normalmente, como director internacional, levava comigo alguém da área de Correspondent  Banking. Desta vez, como a comunidade portuguesa em Toronto  e no Canada era muito numerosa e eu  tinha até acabado por abrir um Escritório do Banco  em Toronto, fui acompanhado para o  Canada  por  duas pessoas, uma da área de Correspondentes, como já disse, e outra da área de Emigração  que faria, sobretudo, os contactos e promoção junto da comunidade portuguesa local, associações, comerciantes, empresários, etc.

Porém, nesse dia da visita ao Royal Bank, como a agenda estava aliviada, levei comigo as duas pessoas, até para que, quem não era daquela área, pudesse tomar contacto mais de perto com a realidade do relacionamento entre Bancos Correspondentes.

Importa dizer que a pessoa da área dos Bancos Correspondentes falava inglês, como se impunha, muito bem.  O mesmo não acontecia com a pessoa da área da Emigração.  Esse, apenas com necessidade de falar português e muitas vezes o "terra a terra" com os nossos compatriotas.

A reunião tinha já terminado e estávamos em pleno almoço. Entre o grupo português, qualquer palavra ou comentário avulso, deu origem a uma enorme gargalhada que me fez,  prontamente,   pedir desculpa aos nossos anfitriões.
E, de imediato, a reacção dos canadianos foi que não tinha importância, tudo muito bem. Mas, também quase em simultâneo,  o colega português da emigração que tinha estado na origem da pequena algazarra, pretendeu  ele próprio apresentar desculpas com toda a informalidade que lhe era habitual e,  no seu melhor inglês,  soltou um  "very sorry, in Portugl we are all GAYS ! ", pretendeu dizer que em Portugal somos  alegres, expansivos.

As caras  de todos os presentes à mesa revelaram alguma surpresa e, eu, tive que fazer talvez o que o que o nosso Embaixador terá feito em New Bedford para salvar a honra do convento!
Passei completamente ao lado  do sucedido, da conversa e do dito.

Mas como uma desgraça nunca vem só,  logo no dia seguinte, falando  para um empresário canadiano, durante um almoço, o nosso "herói da emigração", que na véspera nos tinha ouvido explicar ao Banco canadiano que  o "core business" do nosso Banco era o crédito à habitação,  resolveu, uma vez mais e com enorme estrondo, dar um ar da graça do seu inglês e, a dada altura , explicou ao canadiano, em inglês, que o "hard core" do nosso Banco era o crédito à habitação.
Aí, houve mesmo uma intervenção urgente e oportuna a corrigir o que tinha sido dito. è que não estávamos propriamente numa sex shop nem a ver filmes desse calibre.

Foi, portanto, esta apresentação de mais um livro editado pelo meu amigo e pela Ancora Editora, uma excelente e divertida oportunidade para relembrar algumas das minhas memórias.
Poderei chamar-lhes profissionais?

Carlos Pereira Martins
Em 6 de Março de 2020.





domingo, 1 de março de 2020

O Corona-virus, as Ordens Profissionais e o SNS !



Desde os tempos finais da Troica, do governo de Passos Coelho, que a oposição eficaz, activa e devastadora  à solução  parlamentar e  governativa que ficou conhecida como Geringonça, e podemos até utilizar a expressão mais verdadeira, foi feita, não pelos deputados e grupos parlamentares dos partidos de direita mas pelos Bastonários das Ordens Profissionais dos Enfermeiros e dos Médicos.

Esses, sim, foram demolidores, constantes, corrosivos, labutaram na intervenção publica, inventaram factos quando os assuntos para dizer mal lhes faltavam, agiram com militância, militância politica.

E, quanto a  isto, merece que me detenha num comentário.
As Ordens Profissionais existem exclusivamente para regular o exercício das respectivas profissões. Para, desse modo, defender o interesse publico.
Actuam com poderes delegados pelo Parlamento, regem-se pela Lei Quadro das Associações Publicas Profissionais e, a cada uma, a Assembleia delega poderes específicos constantes dos Estatutos  aprovados para cada Ordem.
As Ordens Profissionais não existem, sequer, para defender os seus Membros.  Para isso, para a defesa de interesses, carreiras, salários e outras condições dos seus associados, existem os respectivos sindicatos que são distintos, independentes e não se podem confundir. Por lei, é de lei.

E temos vários exemplos de Bastonários das duas Ordens referidas, Enfermeiros e Médicos que vieram do mundo sindical. Desde logo, nos Enfermeiros, Maria Augusta de Sousa, que exerceu o mandato de Bastonaria de forma digna e exemplar. Nos Médicos, Pedro Nunes, igualmente com águas separadas, nunca confundindo a intervenção sindical com a de Regulador, como Bastonário. Não recuando muito, nos Médicos, anterior ao actual Bastonário, até José Manuel Silva, se comportou com elevada isenção face ás questões sindicais o mesmo tendo acontecido com Germano de Sousa, Machado Macedo ou Carlos Ribeiro.

Estes, Maria Augusta de Sousa e Pedro Nunes,  são dois exemplos relativamente recentes e muito elucidativos.

Enquanto representantes de Profissionais que, como na sociedade em geral, são diversos, com ideias políticas, formas de agir, opções de vida mais solidaria ou de maior afastamento das causas sociais, das mais diversas opções políticas e ideológicas, eleito por todos eles, um Bastonário não pode actuar segundo critérios partidários, nem pode ter uma intervenção publica e um discurso em tudo semelhante á prática e estratégias partidárias.

Aconteceu, no período já demasiado longo em que se situa este meu apontamento, que a verdadeira oposição foi feita pelos Bastonários dos Enfermeiros e dos Médicos.  Os deputados e os grupos parlamentares daquilo que deveria ter sido a oposição parlamentar e partidária, se ocupou essencialmente com lutas internas, guerrilhas fratricidas entre grupos e grupelhos dentro de cada um dos partidos de direita.

Por aquilo que foi a intervenção dos últimos Bastonários das duas Ordens referidas do sector da saúde, teria mesmo havido legitimidade, em  minha opinião, para a Assembleia da República lhes ter  retirado os poderes delegados até que a legalidade tivesse sido reposta. Mas,  é claro que aí viria um longo rosário de criticas e agitação com acusações de intervenção do governo ou da AR de "censura", de negação do direito de informação e intervenção, o desvirtuar habitual das situações e dos acontecimentos.
Seria muito complicado, admito.

Veio-me este texto ao correr da escrita a propósito de recentes intervenções de dirigentes quer da Ordem dos Medicos e Enfermeiros, quer de responsáveis de instituições e associações médicas sobre a mais do que actual  questão do "corona vírus".

À parte as intervenções marcadamente de cariz partidário das pessoas já referidas,  todas as que se lhe sucedem, são, sobretudo, declarações de pessoas que sofrem de três males.  Um deles, estarão muito de mal com a vida e com os outros. Outro mal, mostrarem  e sofrerem de  raiva, rancor e gosto por propagar a desgraça, o medo e a vinda do pior  que se imagine.  O terceiro mal, quererem mesmo a destruição do SNS e do serviço publico que representa. Apego doentio ao privado.
É só assim assim que  posso entender  as declarações recentes e constantes  de falta de tudo no SNS, de que, quando chegarem os primeiros casos a Portugal será uma enorme catástrofe generalizada nos hospitais públicos, que não há meios suficientes nos hospitais públicos, que nos casos já conhecidos de suspeição de contágios não se cumpriram protocolos, que foi "o diabo à solta" no SNS !

É realmente,  apesar de vivermos numa República o real  passará, muito elucidativo que toda esta gente "amiga do diabo" venha proclamar e pedir condições para os hospitais públicos e para o SNS quando uma catástrofe de saude publica se possa anunciar. Quererá dizer que, obviamente, querem empurrar e só com isso contam, os doentes e todos os custos e utilização de meios para fora dos privados.

O carnaval já passou mas o que é facto é que as mascaras acabam por cair por completo.

Carlos Pereira Martins
Economista.